Mensagens

Aqui

 Era já tempo de seguir. O vento que entra pelo vidro quebrado trás consigo a poeira vermelha que tinge tudo o que toca. Sem ter mais o que perder, desenho formas aleatórias na camada que se juntou sobre a mesa vazia. A incidência da luz da vela, reflectida no espelho quebrado pendurado na minha frente, torna-as completamente indecifráveis. Tão aleatórias quanto o estado de alma que experimento. Não decifro nem uma coisa nem outra.  O  bater metálico do ponteiro que marca o compasso, parece abrandar quando decido parar para o ouvir. Consigo observar o seu movimento entre os sulcos  quinados, de alumínio escovado que se elevam  sobre o fundo preto, dividindo a circunferência em segundos. E cada salto soa a eternidade. Mas fico, mesmo que não saiba onde estou. Talvez por não saber para onde ir. Talvez queira. Já não me recordo sequer como aqui cheguei. Na verdade não é da minha conta como vim aqui parar. É o acaso que nos trás onde estamos em cada momento. De nada...

Desmorrer

 Vendi me por uns cêntimos de calor. Achei me barato e deixei me ficar, num silêncio abafado.  Não ambiciono ter valor. Não quero  ser procurado. Muito menos encontrado.  É tão confortável estar na redoma e não tentar sequer sair.  Seguro, sem correr o risco de cair ou cortar-me nos estilhaços da quebra.  Basta aguardar o fornecimento de ar em doses quase insuficientes mas regulares. Esperar que o tempo aconteça sem mácula ou incómodo, além da privação.  Além da ansiedade de não saber quanto tempo resta.  Os gemidos de dor tornam-se um costume e a certa altura já nem se ouvem. E fico. Um e outro dia. Numa decisão apoiada na fraqueza e no medo de perder um grande conjunto de nadas.  Nadas que aparentemente preenchem. Nadas que dão tudo o que não faz falta. Nadas totalmente dispensáveis.  Amanhã é tarde. E hoje já passou.  Não há mais tempo a perder. Nenhum ter no mundo é maior do que o ser.  O tempo de ser é curto. Curto demais ...

A memória e a dor

 Rasgos de memória lembram me de um tempo que não acabou. Sinto a brisa, e recordo os aromas que trazia consigo. Ao longe o mar chama. E o solo impele-me na sua direcção. Contrario o impulso e deito-me no chão num gesto brusco e impensado. Limito-me a congelar toda a dinâmica e ficar só a olhar as figuras que as nuvens desenham no céu e os riscos dos aviões que aleatoriamente me incomodam a paisagem. Acredito por momentos que a vida é feita do algodão doce que as nuvens fazem lembrar. E ali fico horas a fio a simular a perfeição, em paralelismo com a dimensão onde deixei o corpo estendido.  Quando retorno, todo o solo se mantém inalterado. Os montes as valas, o chão onde estou e o mar ao fundo a clamar, continuam lá.  Sinto o rosto queimado pelo sol e pelo vento. Mas volto leve. E com o cheiro do algodão doce gravado na memória.  Algum equilíbrio  surge. Dura mais uns passos até tombar de novo na próxima viagem entre várias dimensões de uma mesma realidade....

Inquietude

Era ali. E não tinha mais nada a não ser coragem. Nu aos olhos do mundo. O móbil era escasso , e traduzia-se numa acção fria e desajustada. O caminhar trôpego e cambaleante era rotina. Mas nunca parar havia sido motivo de ponderação.  Sem sapatos, experimentava o calor do alcatrão de Agosto. E lembrava que tudo o que estava para trás, tinha sido muito mais difícil. Não eram os meros 80° que o breu sugeria que travariam o ímpeto. Num correr constante, era a dor o aliado que motivava a procura das sombras escassas e inconsistentes das árvores raquiticas e pobres de folhagem. Austero consolo para quem a inquietação não permitia a demora no  humilde oásis. Nada sustém quem almeja a vitória no final da odisseia. Nada prende o sonho de um homem livre. Por mais fortes que se demonstrem as amarras. A privação da liberdade física afeta apenas os pobres de espírito. É o sonho que avança destravado por caminhos sinuosos e realiza. O que solta o homem não está no corpo. É a força da alma ...

O caminho

 O que é o caminho? O que é? São as pedras que piso? Ou é a direcção do vento? Será o canto longínquo que tende chamar pelo meu nome? Ou é apenas o tempo a passar? Não sou de parar mas não forço a subida. Não imponho o meu crer mas não compro tudo o que querem que creia. Tentar convencer alguém, é feio, aos meus olhos. Talvez não o seja para todos.  Estimo a verdade. Embora a definição seja vaga. Há muitas verdades para um mesmo evento. Tantas quantos olhos o observam. De dentro e de fora, dos lados ou de cima.Arrisco a dizer que não há certo e errado. Há sim, formas de olhar.  Opinar é humano, mas é arriscado. O prenúncio da morte chama os abutres. E vê-los a pairar faz o moribundo acreditar que o tempo que resta é menor.  O relógio não estagna. E tudo o que incomoda impede o viver, já de si curto para aprender.  Temer o mundo em volta e calar a voz que quer sair, é sofrer. A inverdade latente nesse existir cai sobre os olhos como uma venda e agrilhoa pelas mã...

Querer

 Trago a alma no bolso, enrolada como uma linha. Augurei outros fados, outras paragens. Mas mudei de rumo. Rodei noventa graus sobre um pé e segui noutra direcção. Passo a passo temi. E tremi. Dancei e cantei, ébrio de querer. Carpi mágoas, morri de amores e renasci. Dobrei cabos das tormentas e enchi-me de boas esperanças. Volvi o meu mundo tantas vezes quantas ele quis rodar. Ganhei. Perdi. E sempre que perdi, ganhei também.  Dei as mãos às mãos que aceitei. E a outras que não pedi.  Ouvi em silêncio.  E a partir dessa surdina fiz discursos intermináveis. Devia ter ouvido mais. Ás vezes, apesar de toda a atenção , a inquietação não nos deixa ouvir o que nos é dito. Só ouvimos o que a nossa alma quer.  Não termino aqui o relato. Ou talvez termine, não sei. Não é o balanço final, porque não sei quando acabarei. Se o for, não foi por querer.  Também não é um inventário. Não se inventaria o viver, nem se vive quando só interessa colecionar o espólio para o co...

Gritar

 Espalhar palavras silenciadas.  Falar alto em surdina, gritando ao mundo sem inquietar ninguém. O grito já não tem como objectivo entrar no ouvido como outrora foi a sua razão de ser.   Só quer sair da garganta. Perdeu a vontade de provar ao mundo ou de procurar resposta. FIcou apenas a necessidade de soltar as amarras que contêm os braços.  Numa atitude aparentemente fria mas profunda, do alto da montanha, projeta-se um brado vindo das entranhas, enquanto todos os vasos sanguíneos da cabeça se fazem ver. Faria doer os tímpanos mais duros, assim tivesse destino.  Todo o esforço resulta num cansaço tal que as pernas têm dificuldade em manter a verticalidade, tremendo em anúncio de desmaio. Tudo em vão. É sabido que há muito que ninguém ouve as vozes que ecoam no espaço.  Acabaram-se os ouvidos em riste que absorviam cada grito e o transformavam em condescendência e compreensão, devolvendo por vezes alguma paz interior. Todos gritamos desenfreadamente ...